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26 de abril de 2006
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Glória da moda

Na dúvida sobre o que vestir para o casamento?
Ou com que meia combinar o sapato? Como conviver
com um ex no ambiente de trabalho? Simples: ouça
os conselhos de Gloria Kalil. Com bom senso e
paciência, a jornalista especializada em moda e
em etiqueta moderna ensina as pessoas a ser
adequadas. Em livros, na internet e no rádio,
ela difunde o bordão:
"Ninguém é chique se
não for civilizado". A primeira
a colocar
isso em prática é a própria Gloria

Nana Caetano


Mario Rodrigues
Gloria Kalil, na sala de 100 metros quadrados do amplo apartamento onde mora, nos Jardins: sofisticada, mas sem afetação


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Galeria de imagens

Ela é a antiperua da moda. Anda de sandália rasteira, não usa batom forte, nunca foi loira e, no dia-a-dia, prefere acessórios prateados a dourados. Você não vai ouvir da boca de Gloria Kalil nenhum daqueles maneirismos e afetações do povo fashion. Chamar desconhecidos de "gata" ou "queridinha"? Nunca. Dar gritos em público e bater palminhas sem razão? Jamais. O conhecimento de moda se mostra nos detalhes: um cinto de lona com a ponta desfiada usado para ajustar o blazer, unhas dos pés pintadas de carmim, estampas de onça nos sapatos... Sinônimo de chique, ela travou contato com o mundinho em 1969, quando entrou para o núcleo de moda da Editora Abril, que publica Veja São Paulo. De lá para cá, virou empresária, escreveu livros de sucesso e se tornou uma espécie de celebridade da elegância e do estilo. Faz palestras no país inteiro e só não topa ser personal stylist – nem de anônimos, nem de celebridades. "Não tenho paciência", diz. Apesar disso, na semana passada, em visita à loja de Carlos Miele, nos Jardins, foi abordada por uma das clientes do estilista. "Gloria, que bom que você está aqui! Tenho um casamento e estou na dúvida sobre qual vestido comprar", choramingou. Ela não só ajudou a escolher a roupa como ainda deu palpite sobre o sapato e os acessórios que a moça deveria escolher.

A mais recente empreitada de Gloria ("Só me chama de Glorinha quem não me conhece direito") é organizar e emprestar seu prestígio a um poderoso seminário internacional de moda, o Fashion Marketing. Nas próximas terça (25) e quarta (26), reúne estilistas, empresários, políticos e jornalistas no hotel Gran Meliá World Trade Center, no Brooklin Novo, para tentar responder à seguinte pergunta: por que a moda brasileira brilha tanto mas não vende? Sua impressão pessoal é de que há muito oba-oba por aqui. "Em nenhum país a moda tem tanto espaço na mídia", afirma. "Em contrapartida, pouquíssimas marcas e estilistas conseguem exportar." Ela chamou pessoalmente especialistas como o presidente da Federação Francesa de Costura, Didier Grumbach, a dona da butique-hype parisiense Colette, Sarah (sem sobrenome mesmo), os estilistas Amir Slama e Carlos Miele, o empresário Roberto Stern e o designer pop Karim Rashid. Também falará Eliana Tranchesi, a dona da Daslu, convidada quando ninguém suspeitava que a megaloja seria alvo de uma operação da Polícia Federal. Elegante, Gloria manteve o convite de pé. Ingressos esgotados, são esperadas 600 pessoas, que pagaram até 1 500 reais para tentar entender um pouco mais desse mercado que está, sem dúvida, sob os holofotes. Só em São Paulo há cinco grandes semanas de moda, com duas edições anuais cada uma, além de quase sessenta cursos especializados, com um total de 5.500 alunos. Trata-se de um mercado gigantesco. Segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), o setor movimentou cerca de 26 bilhões de dólares no ano passado no país e emprega 1,6 milhão de pessoas, se contarmos desde os catadores de algodão e as costureiras bolivianas do Bom Retiro até as vendedoras das grifes luxuosas dos Jardins.


Com o estilista Carlos Miele, palestrante de seminário organizado por Gloria: "Ela foi a primeira a tratar a moda com profissionalismo"

De relações de exportação e importação ela entende. Gloria ficou conhecida nacionalmente quando trouxe para cá, em 1978, a na época desejadíssima grife italiana Fiorucci, depois de passar uma temporada trabalhando na Scala D'oro, indústria têxtil do então marido, José Kalil. Foi um sucesso retumbante até 1992, quando a matriz internacional faliu e carregou junto o braço brasileiro. Chegou a ter dezessete lojas e treze franquias. Em 1996, Gloria resolveu reunir a experiência adquirida nesse contato direto com a moda em um livro, Chic. Pioneiro no mercado, vamos chamar assim, da auto-ajuda de estilo, vendeu 180.000 cópias e deu ânimo à autora para encarar mais dois projetos: Chic Homem e Chic[érrimo] (juntos, os três venderam 350 000 cópias). Esse último, mais do que um guia de moda, é um manual de etiqueta moderna. Ali, Gloria questiona comportamentos como ser esnobe ou insistente e ensina a sair de saias-justas, portar-se em eventos sociais e, claro, vestir-se corretamente.

"Seus textos trazem palavras de sensibilidade e bom senso", diz a também jornalista de moda Erika Palomino. Gloria tem ainda um programete de um minuto na Rádio Eldorado, e suas dicas espertas lhe renderam neste ano o prêmio de revelação do rádio concedido pela Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA). Multimídia, dirige um site, o Chic, no qual, além de publicar críticas de desfiles e notícias do mundo da moda, dá continuidade às tais palavras sábias que encantam Erika. Na semana passada, por exemplo, ensinou os internautas a conviver com o ex-namorado que é colega de trabalho.


Mario Rodrigues
Na redação do site Chic, um de seus muitos projetos: "Nunca assinei um texto que não fosse escrito por mim"

Ela tira muitos dos conselhos que dá de sua própria vida. Separada desde 1980 de José Kalil (seu nome de solteira é Rodrigues Meyer, mas ela adotou profissionalmente o nome do ex-marido), ainda divide com ele o escritório e o tem como um de seus melhores amigos. É madrinha de um dos filhos do ex-cineasta Arnaldo Jabor, com quem se relacionou por quatro anos. "Dificilmente se mantém esse tipo de amizade com um ex", afirma Jabor. "Gloria é uma mulher superior, requintada. É a pessoa mais chique de São Paulo." Ela acredita que, passado o rumor que toda separação provoca, a amizade tem de continuar. "São pessoas ótimas que eu não quero que saiam de perto", conta. Há dez anos namora (em casas separadas e com a maior discrição) o professor de filosofia da USP Sergio Cardoso. "Não gosto de conviver apenas com gente que só pensa em moda", explica ela, que tem entre seus melhores amigos jornalistas, intelectuais e empresários. Filhos, garante que nunca quis. "Eu pensava que mais tarde teria vontade, mas essa hora nunca chegou."

É uma mulher de gostos refinados. Nas paredes do apartamento de 340 metros quadrados onde mora, nos Jardins, há obras de arte de artistas como Arthur Luiz Piza, Siron Franco e Daniel Senise. Na estante, livros de arte e CDs de música clássica. É constantemente vista em vernissages e concertos, como os da Sala São Paulo, da qual é assinante. Fala francês, inglês, italiano e alemão, idioma que aprendeu em casa, com a governanta germânica. Eventualmente, vai ao Estádio do Pacaembu ou ao do Morumbi acompanhar o desempenho de seu clube do coração, o Corinthians. "Adoro futebol. Já ganhei até na loteria esportiva", lembra. Desde o começo do ano, decidiu que não fala mais sobre sua idade. "É uma falta de educação enorme perguntar esse tipo de coisa", ensina. Para ela, manter a silhueta esguia – pesa 48 quilos, mede 1,63 metro e, como quase toda mulher, acha que está um pouco gorda – é o maior segredo para permanecer jovem. "Se você se comportar como uma velha aos 50 anos, como acontecia nas gerações passadas, ainda vai arrastar essa velhice por muito tempo", diz. Ela parece mesmo uma garota. Tem riso fácil, olhos verdes brilhantes e voz suave. Talvez por isso soe estranho ouvir o porteiro ou a secretária chamando-a de "senhora" ou de "dona" Gloria. "Eu já devia estar acostumada, mas não estou."

 

SEU ESTILO

Gloria analisa as produções de algumas celebridades que foram fotografadas para a seção Meu Estilo de Veja São Paulo

Mario Rodrigues
Marília Gabriela
Jornalista
"Usa a moda com sofisticação. É um acontecimento. Sabe que não precisa de um decote exagerado, por exemplo, para ser olhada. A altura permite que ela escolha sapatos de noite sem salto."


Isabella Fiorentino
Modelo
"O longo foi uma moda louca do verão, emplacou mesmo. O jeito contemporâneo e fashion de usar é com sandálias rasteiras, como fez Isabella. Já no inverno vai ser tudo muito curto. Meu conselho é passar a tesoura nos vestidos e usar com meia-calça grossa."
Renata Ursaia


Gui Paganini/Contigo
Daniella Cicarelli
Apresentadora de televisão
"Ela é perfeita e nem de terninho superclássico deixa de ser exuberante. Para usar essa calça justa a mulher não pode ter culote, celulite, nada..."


Débora Falabella
Atriz
"A Débora é uma graça, tem muito estilo e quase nunca erra. Essa roupa especificamente não a favorece porque, com tantos babados e camadas, corta o corpo e dá a falsa impressão de que ela é baixinha e gordinha."
Alexandre Schneider


Mario Rodrigues
Roberto Justus
Publicitário
"É a versão masculina da perua: se acha lindo e se porta como tal. Mesmo o terno clássico fica chamativo por causa da postura."


João Gordo
Apresentador de televisão
"Ele inventou um personagem para si mesmo e se veste de acordo. Também, não teria mesmo muita opção. É um tipo."
Mario Rodrigues


Mario Rodrigues
Raul Cortez
Ator
"Sempre foi chique e teve como aliado o fato de ser alto e magro. O grande perigo do estilo clássico é ser convencional demais. Temperado com toques pessoais, como esse cachecol jogado, fica muito interessante."


Nilmar
Jogador do Corinthians
"Jogadores se destacam pelo corte de cabelo. É o jeito de expressar a individualidade, mesmo de uniforme. Só funciona para rapazinhos. E em campo."
Mario Rodrigues

 

Quatro décadas na moda


Cintia Sanches
José Antonio
Com modelito fashion, na edição de junho de 2005 da São Paulo Fashion Week: ela faz questão de estar presente nas temporadas nacionais e internacionais Em 1986, à frente da operação que trouxe a grife italiana Fiorucci para o Brasil: pioneirismo no mercado de marcas jovens e aprendizado como empresária


Roger Bester
Sergio Berezovsky
Na década de 70, quando começou a trabalhar como jornalista: sorriso é marca registrada Com a amiga Costanza Pascolato, empresária e consultora de moda, em 1981: "Aprecio muito minhas colegas e nunca tive relação de competição"
     
   
 
 
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